quarta-feira, 5 de março de 2008

Estudioso compara aquecimento global à escravidão nos EUA

Estudioso compara aquecimento global à escravidão nos EUA

Publicada em 03/03/2008 às 17h45mCatharina Epprecht - O Globo Online

RIO - O que é que o aquecimento global tem em comum com a escravidão? Pode parecer uma charada boba, mas resposta é séria e não tem muita graça. A argumentação a evitar um posicionamento mais ético dos EUA em relação aos dois problemas mostrou-se a mesma. É o que defende o pesquisador da Universidade de Amsterdã Marc D. Davidson, doutor em Filosofia, e que tem se especializado em questões que envolvem ética, economia e ambientalismo.
Davidson publicou um artigo em que afirma que a mão-de-obra escrava era tão importante para os Estados Unidos sulistas do século XIX quanto os combustíveis fósseis no século XXI. E mais: mantem-se o mesmo tipo de argumentação a refutar tanto o fim da escravidão no passado, quanto o Protocolo de Kioto hoje.
- Muitos economistas e estudiosos acham que seu trabalho é objetivo ou livre de valores. A maior parte, entretanto, pode apontar escolhas que são dúbias do ponto de vista moral - explica o acadêmico holandês, em entrevista, por email, ao GLOBO ONLINE.
Ele defende que o aquecimento global envolve questões éticas porque aqueles que geram os riscos não são os mesmos a lidar com eles, tanto no curto quanto no longo prazo.
Marc D. Davidson diz que sua pesquisa não tem um argumento científico "típico" e que, de alguma maneira, é até político:
- Mas meu ponto principal é o de que não há medida independente, objetiva, para se julgar moralmente abordagem dos riscos climáticos. A única maneira é comparar as atitudes em outros casos.
E essa comparação, diz ele, pode revelar a proteção de interesses.
- Acredito que o Congresso norte-americano esteja hoje protegendo os interesses dos EUA. Por vezes, isso é feito abertamente, como quando os congressistas dizem que não será assinado nenhum tratado sobre o clima que agrida sua economia. Mas na maior parte das vezes, é feito de maneira escamoteada, dizendo que há dúvidas em relação à cientificidade, exagerando os impactos econômicos etc - afirma.
E são esses subterfúgios (ou essa retórica) que ele expõe no artigo "Paralelos entre a argumentação reacionária dos debates congressistas dos EUA sobre a abolição da escravatura e o Protocolo de Kioto", publicado no periódico Climatic Change.
Retórica
A primeira "estratégia" identificada é inverter as reivindicações de mudança. "O que se advoga que seja ruim, na verdade é bom." Uma das citações que usa, do senador e vice-presidente John Caldwell Calhoun, para ilustrar o posicionamento do passado, é de dar vergonha: "A raça africana central (...) nunca existiu em condição tão confortável, respeitável ou civilizada, como a que desfruta nos Estados Sulistas."
Para os dias de hoje, a voz é dada ao senador Inhofe, chefe do Comitê de Trabalhos Públicos e Meio Ambiente (em 2003):
"Até agora, ninguém demostrou nenhuma prova científica de que a elevação da temperatura global chegará às previsões catastróficas dos alarmistas. Na verdade, parece que o oposto é a verdade, que o aumento da temperatura do globo tem efeitos benéficos em nossas vidas. (...) Numerosos estudos mostraram que o aquecimento global pode, na verdade, ser benéficos para a humanidade, (...) para o meio ambiente e para a economia."
Esse raciocínio abre espaço para o segundo. O de que os benefícios propostos pela nova política são duvidosos, de que a ciência (no caso do Protocolo de Kioto) ou a compreensão humana (no caso da abolição) ainda não alcançaram entendimento suficiente para garantir os resultados propostos por quem pede mudanças.
O pesquisador lembra, entretanto, que nem sempre há coerência nessa busca pelas provas: "O mesmo senador Inhofe que insistiu (...) numa completa certeza científica antes de aprovar fundos para combater o aquecimento do clima, encontrou justitificação suficiente em informações inconclusivas do serviço de inteligência dos EUA, contradizendo o inspetor chefe de armas da ONU, para começar a guerra no Iraque."
Por outro lado (argumento 3), defende-se que a mudança de parâmetros seria a ruína da economia e da segurança nacional. Nesse caso, as citações são cheias de números, cifrões e palavras negativistas (ruína, devastação, desemprego, escuridão...) De novo, o senador Inhofe chega a afirmar que "Kioto é uma arma econômica designada a destruir a competitividade e a superioridade econômica dos EUA."
Há ainda a discussão de que a mudança seria injusta com os EUA (ou com os Estados Sulistas, no caso da escravidão). Ao que Davidson cita a sugestão do Brasil de que no cálculo para futuras emissões fossem consideradas as emissões do passado. Nada mais justo? Para os países emergentes com certeza.
- Mas os EUA tem todo um conjunto de idéias e discursos a provar o contrário - aponta o pesquisador.
A quinta semelhança entre as discussões é a da soberania. A escravidão era tida como assunto doméstico, assim como "muitos congressistas americanos se horrorizaram com a idéia de órgãos supranacionais tenham voz em assuntos internos dos EUA, como o consumo de energia". E cita os senadores Hagel ("Corta o coração de nossa soberania nacional colocar uma autoridade internacional que sujeitaria os negócios e indústria americanos a sua autoridade. Nunca antes na história dessa nação livre isso aconteceu."); e Craig ("Nunca antes, permitiu-se que interesses estrangeiros ditassem on tanto de energia que os americanos podem usar."), além do enfático deputado Rohrabacher ("Não vou abrir mão da minha liberdade para uma cambada de funcionários desqualificados de outros países (...) Em 10 anos, todos esses órgãos serão liderados por povos corruptos do Terceiro Mundo que provavelmente serão subornados pela China Comunista.")
Por fim, argumenta-se que "ao se tentar beneficiar um grupo vulnerável, pode-se fazer mal a outros grupos vulneráveis", como as mulheres, que teriam de fazer trabalhos domésticos com o fim da escravidão e que, se comparadas aos escravos homens livres, teriam menos direitos na sociedade.

Nenhum comentário: